Urso Bardo: Onde está a Dona Antónia?

Aos poucos criou-se o equilíbrio. Deram-se à melancolia, à racionalidade e ao experimental. Não sendo fácil autodefinirem-se, os Urso Bardo sabem que são distorção, extensão e harmonia. Concentração e descontracção. Qualquer coisa de genética portuguesa em contacto com influências de outras. Em Vida e Morte de D. Antónia, o segundo álbum da banda lisboeta gravado e mixado no Blacksheep Studios, ouvem-se as diferenças, a supressão e a mesma linguagem.

“Aprendemos com a experiência do primeiro álbum”. Quem o diz é o Ricardo Antunes. “Agora somos músicos diferentes, estamos noutras fases e temos outras influências”. Ao contrário do que aconteceu no primeiro álbum homónimo, o grupo permitiu-se mais à exploração. “Este disco é mais intencional. O anterior teve um período em que nem sabíamos se íamos gravar ou não, mas assumimos que era isto que queríamos fazer”.

Dez músicas finalizadas, 40 minutos e a gravação do disco eram os alvos. “Tivemos uns 10 meses em que não se passou rigorosamente nada. Tínhamos três temas escolhidos e não saía mais nada, não acontecia. Depois desbloqueamos e as coisas fizeram-se”, explica o Tiago, um dos guitarristas. “Descobrimos que funcionamos bem com essa posição de estabelecer objectivos para nós mesmos”. As resistências instigaram a chegada e “às vezes por haver forças contraditórias pelo caminho, vamos parar a um sitio onde nenhuma das partes envolvidas sozinha ia chegar lá”, acrescenta.

Recuperaram-se alguns truques antigos e libertaram-se outros. As coisas progrediram em surpresas e a banda chegou ao Blacksheep Studios com momentos em aberto. “No meu caso, precisei de regressar às rotinas. Voltei à acústica, mudei afinações, andei a tentar ficar fora do meu elemento e percebi que não estar a fazer isso estava a cortar-me um bocado as pernas.”, admite o Tiago.

A gravação do disco foi feita ao vivo. Dois dias e meio de captação adicionados aos dois dias e meio dedicados às percussões e à edição. O Bruno Xisto assumiu o controlo e a dinâmica. “Foi tudo muito rápido e intenso. Nisto, o Bruno foi uma peça fundamental porque tem muito mais experiência a gravar e percebeu logo o nosso som”, explica Ricardo. “Nunca foi uma força de fricção, pelo contrário. Colocou-se numa posição de disponibilidade total que adicionou consideravelmente à nossa música. Usou os terminais analógicos, tudo muito old school. Parecia que estávamos nos cenários do Apollo 18”.

Quando a música se torna minimal, os momentos circundantes acabam por prever uma quase libertação. Entre passagens mais extáticas, Urso Bardo faz chega-la mais perto dos nossos ouvidos e injecta-nos com detalhes subtis. À volta da história da Dona Antónia, a envolvência fica intrínseca.

“Vida e Morte de D. Antónia’ vai estar à venda nas lojas no início do próximo ano.

http://ursobardo.com

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por: Teresa Melo
fotografia: Vera Marmelo

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